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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Releitura justificada

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(...e enquanto uns de mãos cheias gozavam a prerrogativa de um horizonte aberto
outros sobreviviam em cada minuto vivido .)


O grito retumbou como um rasgão de denúncia.
Correram todos à rua levando
a única arma que os distinguia
o cheiro a sal a cimento a aço
a terra apodrecida
o olhar vítreo no horizonte limitado
mas firme no horizonte sempre reinventado.
Era a Liberdade
a revolução exangue
a espada paladina desembainhada
por sobre as cabeças gritando
que para sempre se haviam fundido
as grades os grilhões e as cadeias
não seriam mais colmeias de gente desesperada.
Era a Liberdade
de se ser homem
ser livre no pensamento
olhar o pão e dizer MEU
porque ganho sem opressão.
Era a Liberdade
de dizer suas as suas mãos
e no delinear de um gesto
um símbolo supremo e simples
ficasse suspenso e dissesse
FUTURO.
Era a Liberdade
de provocar na memória o esquecimento
e de mãos em concha receber
e molhar os olhos de água pura
de um poço subterrâneo de novo aberto.
Era Liberdade
de poder correr ao campo sozinho
e gritar a opressão e a chacina
sem olhar de soslaio as árvores e as plantas
sem desconfiar do próprio ribeiro limpo.
Era a Liberdade
de poder escrever e denunciar
os versos de dor tão idealizados
sem recorrer ao laboratório da mente
e escolher palavras cobertas.
Era a Liberdade
de poder dizer País e Pátria amada
de ser livre e dar aos outros
à luz do dia e da razão
a mão tão franca
outras vezes dissimulada.
Era a Liberdade
e o fim de todas as cadeias
de toda a opressão
de todas as ideias
impostas sobrepostas.
Era a Liberdade !
E na rua
de mãos nuas
o Povo gritava
" Água pura ! Água pura ! "

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Memória (2)


                         II

Concentrei-me sobre a máquina de escrever.
Os meus olhos deixaram de ver
e o meu cérebro
                         de pensar
naquele momento deixei mesmo
                                                de amar.
Cada vez mais turva
a retina e a mente
descreviam a curva descendente
para entrar no subconsciente.
E apareceram-me nos lábios frases estranhas
ruídos inaudíveis
                         ecos de entranhas
marcas de um tempo sempre adquirido
na hereditariedade
                            do homem primata
não sei o ano nem a data
mas era humana de certeza
a história que contei
nos gritos que dei
nas palavras que disse em reza.
..................................................................
Voltei a mim
olhei-me ao espelho
estava lívido
e no chão os meus pés rolavam
por sobre pequenas pérolas de fel".

Nota: Os poemas constantes destes postes (Memória 1 e 2) foram republicados
no livro "De Coração na Mão", edição de autor, 1978.
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Memória (1)


Em 19 de Março de 1972, o Jornal do Fundão, do saudoso António Paulouro, procedeu à minha primeira publicação de poemas.

        I.
           Exame real
         específico
              microscópio.

           Uma célula
                 de pensamento
            em reacção
               em suspensão
                      em decantamento.

                Congelamento
  total
                desintegração
    global
              aquecimento
            moderado.
                             Resultado:
                            Ser hialino
                                  microscópico
                                  neuitralizado.