quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Memória (4)

                       

  PANFLETO

O poeta não mais se sentou para escrever.
Os seus poemas foram apreendidos.
Não mais se ouviu falar do poeta
porque o poeta foi preso.

E interrogaram o poeta
e torturaram o poeta
mas o poeta não gritava
mas os olhos do poeta gritavam
não de dor mas de raiva;
e os olhos do poeta tinham lágrimas
mas as légrimas não eram palavras do poeta.

Reconsiderou:
O poeta jurara não chorar
                       não voltar a chorar
e o poeta deixou de chorar
e o poeta começou a rir
e bateram no poeta por ele rir
enquanto devia chorar pela tortura;
e queriam que o poeta falasse
mas só recitava os seus poemas de ataque
porque o poeta jurara não denunciar
porque o poeta jurara continuar
a olhar o mundo nos seus olhos de poeta
porque queria continuar a ser poeta.

O poeta queria continuar a falar livre
e roubaram a fala ao poeta;
o poeta queria continuar a escrever
e roubaram a escrita ao poeta;
e quizeram roubar-lhe o pensamento
mas o poeta continuou a pensar
e o poeta recomeçou a olhar
e roubaram os olhos ao poeta
por ser perigoso um poeta olhar.

Cego, mudo e sem escrita
mandaram o poeta embora
e o poeta foi passear na rua
e o poeta era cego
e o poeta era mudo
e o poeta não podia escrever
e voltaram a prender o poeta
porque os outros olhavam para ele
e reconheciam o poeta
porque ele era o poeta
e continuava a falar
                      a ver
           e a escrever
nos olhos das pessoas que passavam.
E o poeta foi condenado
e mataram o poeta
e enterraram o poeta
mas o poeta continuou a viver
na memória os que o conheceram
                                          leram
                                       falaram
                                   e olharam
porque um poeta não se mata
                           não se cala
                           não se venda
                           nem se vende
porque é POETA.

E quizeram lavar o povo
para desaparecer dele o poeta
mas o poeta era o povo
e até ao último homem-são
existiria sempre o poeta.

O poeta está morto
mas vive
vive sempre
enquanto houver homens que lutem
que digam a pleno peito
sem medo e com orgulho
EU-SOU-POETA !!

Viva o poeta !
Viva o Povo !
Viva o Povo que é Poeta !

Março, 1971
                                                             




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