sábado, 18 de junho de 2016

De resposta a um desafio...

"Si le hubiera cortado las alas habría sido mío, no habría escapado.
Pero así, habría dejado de ser pájaro y yo, yo lo que amaba, era el pájaro."

Joxean Artze.




Pedi-te sempre que não olhasses para trás.
Tu sabias que te queria demais,
na totalidade, por dentro e por fora,
só para mim e sem deixar nem um pouco para ti.
Tu existias para que eu existisse
queria-te sempre a voar ao meu redor,
era eu o teu único destino...

Foi apenas isto que te obriguei a interiorizar
por isso , num equívoco, deixei-te esvoaçar
e tu não voltaste, seguiste e cumpriste,
nem olhaste para trás...
Aí, entendi como era falso...
Descobri, já só, que afinal eras tu o meu destino,
que te amava por ti e apenas por ti.
Descobri que as minhas mãos apenas têm dedos e não tenazes e
os meus braços apenas abraçam não agrilhoam;
o muito querer nem só tudo aceita, nem só tudo exige,
o amar é dar e aprender.

Agora...
só,
olhando cada dia que nasce,
repondo lá longe a linha do horizonte,
sejas tu o Sol ou apenas o meu Sol,
espero ansiosamente que inicies o teu voo de regresso....


Miguel Gomes Coelho
2016

domingo, 8 de março de 2015

A apresentação de José do Carmo Francisco

O Exemplo das Árvores”
de Miguel Gomes Coelho
A Poesia não é a voz do Mundo. E talvez nunca tenha sido ao longo do Tempo e da História. Hoje a voz do Mundo é a morte, a escuridão e o esquecimento. Pelo contrário, a Poesia é feita de luz, de vida e de memória. Este livro também. Camilo Castelo Branco escreveu um dia que «A Poesia não tem presente; ou é sonho ou saudade». E vem a propósito lembrar o grande mestre da Literatura Portuguesa nascido em Lisboa na Rua da Rosa em 1825. Se fosse vivo ele comentaria este segundo livro deste autor com uma palavra muito do seu agrado – a palavra cometer. Ora o autor deste livro «cometeu» em 1978 outro livro com o título de «De coração na mão». Ou seja – a Natureza e a Cultura lado a lado, tal acontece como no título deste livro hoje em apreço – «O exemplo das árvores». Na verdade são seis os capítulos deste livro de poemas mas, como acontece nos livros de contos, o autor escolheu um dele para título do conjunto. Neste caso é «O exemplo das árvores» que ocupa as páginas 11 até 18. Vejamos o poema inicial do capítulo: «Seja qual for o destino / do voo das tuas mãos / lembra-te / e pensa maduramente / no exemplo da árvores». Este advérbio de modo («maduramente») surge aqui como valor enfático de uma reflexão. Ao longo dos séculos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes mas tem oscilado sempre entre a canção e a reflexão. Neste primeiro capítulo é a reflexão que conta como por exemplo no poema da página 16: «Não li uma linha / nem escrevi uma frase / mas tive um poema nos meus braços / e declamei-o com toda a força do meu silêncio / não fosse alguém quebrar-me o encantamento». Já em «Mar final» a força está na reflexão sobre a viagem que é uma projecção da vida. Começa na página 21 («Porque sempre se cantam as mães /cantemos também a morte / que é a mãe do nada»), percorre a página 23 («Apenas deixarei ficar / um último aceno / ninguém mais se recordará desta barca / ou deste mareante») e conclui na página 25: «Depois lancem as cinzas ao vento / e nele escrevam o epitáfio. / Realiza-se assim o sonho seminal da morte / Nasce a memória, talvez a saudade». A ligação entre esquecimento e morte confirma-se na página 28: «Neste tempo que se liquefaz / e corre célere num túnel de nevoeiro / o único destino é o esquecimento.» O terceiro capítulo é «Com as mãos cheias de gente» permitindo que o poema faça perguntas em voz alta e no colectivo: «De que serviu, então, o passado? De que serviu ter as mãos cheias de gente / e o coração do tamanho do mundo? / De que serviu a promessa jurada de um futuro / inteiro e limpo de braços encadeados / numa marcha segura / o horizonte como destino / olhando em frente?» Noutro poema se escreve o Natal de modo diferente: «É noite e as estrelas estão lá em cima. / Uma criança nasce com a morte já estampada nas faces (…) É assim o Natal no Darfour / e as mesmas estrelas estão lá em cima». Por isso se pensa em Deus pela negativa: «Se Deus existisse / as pedras lançadas em seu nome / transformar-se-iam em água / saravam feridas, purificavam actos; / mas Deus, se existiu, morreu / e não deixou testamento / nem descendência». Em «Transparências» os poemas são breves entre dois e cinco versos, concentrando a canção e a reflexão na mesma temperatura como na página 52: «Nunca abras um espelho / nunca queiras ver o que lhe ficou gravado na memória». O capítulo «Diapositivos» reflecte no seu conjunto de seis andamentos poéticos uma ideia ancorada no título do livro: A Natureza fornece a imagem,a Cultura faz a sua apropriação por escrito e por extenso. A Poesia é um vulcão que ainda não está extinto porque como na página 61 «De uma furna onde / ainda esvoaçam emoções / renasce um tardio rio de lava; / um espanto no entardecer / em que o sol se demora um pouco mais / no aguardar da noite certa». Por fim em «Oldenburg» o livro é uma linha paralela entre em dois poemas – «Nocturno» e «Encontro em Oldenburg». A base é uma promessa («Disseste que me ias trazer mais vida») e o ponto de chegada é um balanço. Dito de outra maneira, trata-se aqui de um inventário qualificado. O poem avisa o destinatário - «Quero ensinar-te tudo o que aprendi e / o que descobri no vogar dos dias» - e mesmo na adversativa para o destinatário- «Vais saber que as lágrimas / não caem só dos olhos» - e também para o autor - «Andar pela vida não é fácil» - o ponto a atingir fica dentro do enunciado do possível: «saber que os homens podem ser / como as árvores». «O exemplo das árvores» que dá título ao presente livro de poemas é o modelo (breve embora) de tudo o que permanece apesar do desgaste e da erosão. Porque as árvores dão aos homens o exemplo vivo e concreto da ligação à terra e ao seu calendário de sementeira trabalhosa e de colheita festiva. Os parvalhões que gritam ao telemóvel o brutal e imperativo «Tázadonde?» nos bancos do autocarro, do eléctrico, do elevador ou do Metro, são a voz do Mundo que fala alto e atropela mas não são a voz da Poesia. Nem nunca serão eles, os que falam alto, essa voz porque o seu som gritado se vai perder muito depressa nas valetas do esquecimento enquanto a Poesia tem e terá sempre os seus leitores, teimosos e heróicos, capazes de a invocar seja no bulício da rua seja no silêncio dos corações. (Edição: Fólio Exemplar, Capa e Paginação: Ana Nunes) --

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por José do Carmo Francisco às 13:49

Lançamento de "O Exemplo das Árvores"


Foi um belo fim de tarde.
Poesia e amigos, um conjunto insuperável.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Novo convite


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

sábado, 2 de agosto de 2014

Matilde canta o poema Matinal


Numa magnífica noite de fados no Arcaz Velho em Alfama, acompanhada por Bruno Mira e o indispensável Pedro Pinhal, a minha amiga Matilde Antunes estreou, com música do fado "Esmeraldinha", o canto do meu poema "Matinal". Um grande agradecimento à Matilde pela forma como o interpretou enchendo-o com toda a sua sensibilidade.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Novas quintilhas para fado

 
 
 
Bebo um copo de mágoa
lentamente, trago a trago
atiçando esta frágua
como é pesada esta água
como é duro o preço pago.

Há sombras correndo as ruas
que tenho dentro de mim;
sombras negras, fazendo suas
essas ruas tão cruas
de que não descubro o fim.

Ficarão no meu sudário
numa imagem imprecisa
tornado em relicário
de um perfeito fadário
desta vida que me pisa.


Bebo um copo de mágoa
e espero o fim do rio
como é pesada esta água
mesmo ardendo nesta frágua
o meu corpo fica frio.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O meu Mercador de Esperança


(Imagem: Pintura em acrílico sobre tela)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mãos nuas

 
Umas mãos nuas
não é sinónimo de vazias.
 
Vazias são as cabeças
que têm mãos vazias.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Prometeu a meio da tarde



Só a música me acalma
e sorte a minha aconchego-me
ao agrilhoado Prometeu;
Hércules está ao meu lado e venero-o.

Um dia de folhas caídas
por dentro e por fora.
Ao contrário do habitual
não me tremem as mãos 
- não há deuses que me façam tremer as mãos -
e um vazio de poço profundo existe
sem que nada se divise.

E assim,
olhando a língua enrolada
de quem à minha frente
embala uma cornucópia
ponho um ponto final
e desisto do resto do dia.

Jan.2014

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Quadras soltas para fado




Num encontro encontrei
sem esperar em tal espera
o que ter nunca tivera
amor como nunca amei.

Quando olho o teu olhar
ao beijar a tua boca
muito pouco se apouca
muito sinto que ganhar.

Por ti sigo, por ti corro
por ti paro, por ti espero
por ti vivo , por ti morro
por ti choro e desespero.

Na distância deste grito
meu coração corre ao teu
pode ele estar no infinito
estará sempre ao pé do meu.





3/2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Trazer um título à tela


Ainda o "De coração na mão"
 
 
(Imagem: Acrílico s/tela)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Nuno Mata canta "Fado Cinzento" de Miguel Gomes Coelho



Um grande cantador que tem dado, além de uma grande amizade, a conhecer quase toda a minha  poesia para fado.
Tudo o que possa dizer será pouco como agradecimento

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Jorge Morgado cantou Miguel Gomes Coelho



O meu primeiro poema para fado - Cansado deste cansaço - teve honras de ser cantado na noite de Lisboa.
Obrigado ao Jorge Morgado que lhe deu voz e instigou o autor a começar esta aventura na escrita.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quatro quintilhas para o Fado Tango

vazio.jpg (700×483)
















Subo ao cesto da gávea
deste barco que sou eu
baloiço ao sabor das vagas
deste mar feito de mágoas
que a minha vida me deu.

Nada vejo que seja fonte
de prazer ou bom augúrio
nada há no horizonte
lugar feliz que se aponte
nem um grito nem murmúrio.

Desisto de ser gajeiro
volto ao convés, ao coração,
desço (as) velas por inteiro
o leme sem timoneiro
(e) olho o fim sem ilusão.

Este meu mar é fatal
tem um penhasco no fim
onde se despenha afinal
todo o bem e todo o mal
e o nada que resta de mim.


domingo, 22 de julho de 2012

Nuno Mata, cantador de fado


Uma fotografia que vale por um agradecimento.
O Nuno estreou, ontem, com a música do Fado Bailado, o canto do "Fado Cinzento".
http://joaoolhosnomar.blogspot.pt/2012/04/fado-cinzento.html

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Releitura justificada

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(...e enquanto uns de mãos cheias gozavam a prerrogativa de um horizonte aberto
outros sobreviviam em cada minuto vivido .)


O grito retumbou como um rasgão de denúncia.
Correram todos à rua levando
a única arma que os distinguia
o cheiro a sal a cimento a aço
a terra apodrecida
o olhar vítreo no horizonte limitado
mas firme no horizonte sempre reinventado.
Era a Liberdade
a revolução exangue
a espada paladina desembainhada
por sobre as cabeças gritando
que para sempre se haviam fundido
as grades os grilhões e as cadeias
não seriam mais colmeias de gente desesperada.
Era a Liberdade
de se ser homem
ser livre no pensamento
olhar o pão e dizer MEU
porque ganho sem opressão.
Era a Liberdade
de dizer suas as suas mãos
e no delinear de um gesto
um símbolo supremo e simples
ficasse suspenso e dissesse
FUTURO.
Era a Liberdade
de provocar na memória o esquecimento
e de mãos em concha receber
e molhar os olhos de água pura
de um poço subterrâneo de novo aberto.
Era Liberdade
de poder correr ao campo sozinho
e gritar a opressão e a chacina
sem olhar de soslaio as árvores e as plantas
sem desconfiar do próprio ribeiro limpo.
Era a Liberdade
de poder escrever e denunciar
os versos de dor tão idealizados
sem recorrer ao laboratório da mente
e escolher palavras cobertas.
Era a Liberdade
de poder dizer País e Pátria amada
de ser livre e dar aos outros
à luz do dia e da razão
a mão tão franca
outras vezes dissimulada.
Era a Liberdade
e o fim de todas as cadeias
de toda a opressão
de todas as ideias
impostas sobrepostas.
Era a Liberdade !
E na rua
de mãos nuas
o Povo gritava
" Água pura ! Água pura ! "

Natal no Darfour

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É noite e as estrelas estão lá em cima.
Uma criança nasce com a morte já estampada nas faces,
como a outra.
Só que não durará trinta e três anos nem
trinta e três dias nem
trinta e três horas;
talvez trinta e três minutos ou
trinta e três segundos ou talvez já nasça morta.

É assim o Natal no Darfour
E as mesmas estrelas estão lá em cima.

(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

Conchas



(Imagem:Acrílico s/tela)

Orgulho

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Plantámos três árvores.
E que belas são, que força existe nos seus ramos,
que seiva rica lhes corre nas entranhas.

(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

Dia feliz

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Hoje estou contente.
Os lábios são de semente
e o futuro cheira a jasmim.


(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A linha do horizonte

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Mantens-te a querer ser um náufrago no seco leito de um rio.
O teu olhar diz-me que renunciaste.
O teu silêncio diz-me que te resignaste.
O teu corpo diz-me que desististe.
Retiraste, mesmo, a linha ao horizonte.

(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

Uma experiência inesquecível



(Imagem: Acrilico s/tela prensada)

Duas linhas


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Por muito que nos afastemos
a nossa sombra andará sempre de mão dada.



(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

Poema contigo

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É bom saber que estás por perto
embora das tuas mãos não brotem gestos solares
nem da tua boca surjam rumores de mel.

Mas é bom olhar e sentir que estás
porque a tua ausência seria a amargura nos dias
e as noites um túnel de insónia.

Por mais que te sinta transparente
não posso esquecer o tempo
em que dávamos de comer à ave dos sonhos.

E que da nossa árvore brotou seiva,
que nasceram risos e cairam lágrimas
e se levantaram manhãs que nos justificaram.

Por mais que pressinta o desentrelaçar dos nossos ramos
eu sei que seguiremos sempre resguardando os frutos
até que a árvore se consuma.

(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Entre o sonho e a escrita




(Imagem: Acrílico s/tela)

A base

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Sempre vos ensinei a cantar as raizes.
Aquelas do peito
e as das ervas.




(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ainda sobre a fome


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No espaço de três segundos
morrem de fome duas crianças.

Desfalecem silenciosamente;
já nem forças para sofrer
e morrem lentamente.

E eu sei
e sinto uma profunda vergonha
e não consigo dormir
mesmo de olhos fechados.

(Recuperado do Blogue Vermelho Cor de Alface)

Viagem inimaginável-V



(Imagem: Acrílico s/tela)